Com Pecadores, Ryan Coogler (diretor de sucessos como ‘Creed’, ‘Pantera Negra’ e ‘A Última Parada’) reafirma seu domínio narrativo e visual dentro do cinema contemporâneo, expandindo sua linguagem para os territórios sombrios do horror psicológico e social. Conhecido por sua habilidade de unir o simples entretenimento com profundidade temática, Coogler entrega aqui uma obra inquieta e provocadora. O filme mistura os arquétipos clássicos do terror com questões históricas e raciais, em uma alegoria poderosa sobre os pecados herdados e os fantasmas da identidade.
História

A trama gira em torno de um homem atormentado pelo passado, interpretado de forma visceral por Michael B. Jordan (ator renomado, conhecido por Creed e Pantera Negra), que precisa confrontar tanto as assombrações internas quanto um sistema social corrompido. A ambientação — uma cidade fictícia marcada por uma herança opressiva — é quase um personagem por si só, envolta em névoas e silêncios que ecoam o trauma coletivo. O roteiro, assinado pelo também diretor, é sutil e estratégico, evita explicações fáceis e aposta em uma narrativa em camadas, que vai se revelando aos poucos, como uma ferida sendo exposta.
Visualmente, Pecadores é um espetáculo sombrio. A direção de arte e a fotografia trabalham em sintonia para compor um universo de contrastes: escuridão e luz, respectivamente, ruína e redenção. Cenas em que a realidade parece se desdobrar dentro de pesadelos remetem ao cinema de Jordan Peele, mas Coogler imprime sua marca com uma condução menos expositiva e mais enigmática. A trilha de Ludwig Göransson (compositor reconhecido por seus feitos em Oppenheimer, The Mandalorian e Pantera Negra) reforça essa atmosfera, usando sons ambientes, batidas tribais e temas eletrônicos distorcidos para criar uma tensão quase constante.
Diferenciais do longa

Um dos grandes méritos do filme está na maneira como o terror é usado não apenas como estética, mas como ferramenta de crítica social. O sobrenatural em Pecadores é simbólico: representa vícios herdados, culpas passadas, estruturas raciais corrompidas. Assim como em Corra! ou Nós, o medo nasce da relação com o sistema, e não apenas de um vilão externo. No entanto, enquanto Peele tende à ironia e ao sarcasmo, Coogler adota uma abordagem mais trágica e melancólica, tratando seus personagens com compaixão.
Alguns membros da crítica após nossa sessão apontaram que este talvez seja o filme mais maduro e introspectivo da carreira do diretor. Sua construção narrativa exige paciência e atenção, o que pode não agradar a todos. Mas há um senso de urgência emocional em cada cena. A montagem deliberadamente lenta nos momentos-chave permite que os sentimentos respirem, criando espaço para que o espectador realmente sinta o peso das escolhas e das consequências. Esse não é um filme que busca respostas — ele quer levantar perguntas.
A atuação de Michael B. Jordan merece menção especial. Seu personagem, dividido entre passado e futuro, culpa e esperança, carrega nos olhos um conflito interno devastador. Ao lado dele, Zazie Beetz (reconhecida por seus papéis em Atlanta e Deadpool 2) e Delroy Lindo (‘Destacamento Blood’ e ‘Romeu tem que morrer’) oferecem performances igualmente poderosas, funcionando como vozes do subconsciente e do coletivo. Há algo de shakespeariano nos diálogos, mesmo quando sutis, como se os personagens falassem não só por si, mas por gerações inteiras.

O filme também se destaca por seu uso da mitologia afro-americana. Ao invés de recorrer a clichês do gênero, Coogler insere elementos do folclore negro dos Estados Unidos: vampiros como parasitas sociais, sombras como heranças genéticas, sangue como memória. Esse subtexto torna ‘Pecadores‘ uma obra rica para múltiplas interpretações, especialmente quando observada sob a lente de raça, classe e ancestralidade.
Embora seja um filme denso, há momentos de beleza e até redenção. Coogler não abandona a esperança, mesmo quando mergulha seus personagens no abismo. O final — ambíguo, porém potente — sugere que é possível romper ciclos, mas não sem cicatrizes. ‘Pecadores‘ não entrega conforto ao espectador; ao contrário, o obriga a refletir sobre seus próprios pecados, conscientes ou não. Como diz uma das personagens: “A cura não vem antes do reconhecimento”.

Conclusão
Tecnicamente impecável, tematicamente ousado e emocionalmente devastador, Pecadores é uma das obras mais importantes do cinema norte-americano recente. Coogler se mostra em plena maturidade criativa, construindo uma narrativa que transcende o gênero para falar diretamente com o inconsciente coletivo. Se em ‘Pantera Negra‘ ele propôs uma utopia, aqui ele nos confronta com um espelho sombrio — e ainda assim necessário.
Ao final da sessão, o que permanece é a sensação de que o horror verdadeiro não está nos monstros que saltam da tela, mas naquilo que carregamos conosco todos os dias: a história mal contada, os silêncios herdados, os pecados que não ousamos confessar. Pecadores é, acima de tudo, um filme sobre o que não se vê — mas que insiste em nos assombrar.

Pecadores (2025)
- Nota5
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