Conclave (2024), dirigido por Edward Berger – diretor vencedor do Oscar por ‘Nada de Novo no Front (2022)’ -, é uma adaptação do romance de Robert Harris que transforma o secreto processo de escolha de um novo Papa em um drama político envolvente e visualmente impactante. Ao invés de seguir os caminhos convencionais de uma cinebiografia religiosa ou de um thriller de bastidores, Berger opta por uma narrativa densa, guiada por simbolismos visuais e um ritmo quase litúrgico (perdoe o trocadilho), que confere ao filme um senso cerimonial e de tensão permanente.
A direção geral de Berger é contida e elegante. Seu domínio do tempo narrativo é notável, evitando picos dramáticos fáceis e construindo a tensão de maneira gradual e silenciosa. Ele lida com o desafio de filmar longas sequências de diálogos entre personagens enclausurados em ambientes estáticos — como capelas e salões do Vaticano — sem deixar que o ritmo esmoreça. Sua condução é como uma oração sussurrada, que, aos poucos, se transforma em clamor.
A direção de fotografia de Stéphane Fontaine – responsável pela fotografia de ‘Capitão Fantástico (2016)’, Jackie (2016) – se destaca pela escolha de paletas frias, composições simétricas e o uso constante da luz natural filtrada por vitrais ou velas. Há uma estética de austeridade que casa perfeitamente com o tema e o cenário: o Vaticano nunca pareceu tão imponente e, ao mesmo tempo, tão frágil. Os corredores escuros, as sombras projetadas e os close-ups silenciosos ajudam a transmitir o peso do segredo, da culpa e da ambição — temas centrais do filme.

A direção de arte merece um destaque especial. Os interiores reproduzidos — ou inspirados — nos espaços do Vaticano impressionam pela precisão e pelo bom gosto. Há uma reverência estética que evita o excesso barroco e opta por uma sobriedade elegante, reforçando o contraste entre o sagrado e o político. O cenário não é apenas pano de fundo, mas uma extensão do próprio conflito do filme: o espaço físico do poder espiritual.
Os figurinos seguem essa mesma lógica. As vestes clericais são meticulosamente representadas, desde os paramentos litúrgicos até as roupas de passeio dos cardeais, reforçando as hierarquias e individualidades dentro do colégio cardinalício. As cores — púrpura, vermelho, branco — são utilizadas para marcar simbolicamente os níveis de autoridade e a evolução interna dos personagens ao longo do conclave.

Um dos grandes méritos técnicos de Conclave está na maneira como o silêncio é usado como instrumento dramático. Berger e sua equipe criam tensão não com música excessiva ou cortes rápidos, mas com pausas prolongadas, olhares cúmplices e uma câmera que hesita antes de revelar informações. Essa economia narrativa dá ao filme um peso emocional e moral raro no cinema contemporâneo.
A trilha sonora de Volker Bertelmann – compositor igualmente vencedor do Oscar por ‘Nada de Novo no Front (2022)’ – surge pontualmente, com acordes discretos que evocam o clima litúrgico sem jamais se sobrepor à mise-en-scène. É uma trilha que respeita o silêncio, o suspense e a interioridade da trama. Em muitos momentos, o som do ambiente — os passos, o ranger das portas, o sussurro das orações — assume o protagonismo.
Embora algumas críticas tenham apontado possíveis liberdades em relação ao procedimento real do conclave, como a presença de um cardeal “secreto”, essas licenças criativas servem à construção dramática e não comprometem o tom geral do filme. Ao contrário, ampliam o debate proposto pelo diretor sobre fé, segredo e poder — três palavras que resumem com precisão o núcleo temático da obra.

Se o roteiro entrega uma trama densa e gradual, é o cuidado com os aspectos visuais que transforma Conclave em uma experiência cinematográfica completa. A harmonia entre direção, fotografia, arte e som garante uma imersão profunda, que convida o espectador não apenas a observar, mas a refletir sobre o que vê e ouve — como se também estivesse confinado naquele conclave.
Conclave é um filme sobre estruturas invisíveis — da Igreja, da fé, do poder — e sua realização técnica faz justiça ao conteúdo temático. Trata-se de uma obra sofisticada, madura e profundamente estética, que foge de sentimentalismos fáceis e oferece, no lugar disso, uma investigação visual e espiritual dos bastidores do Vaticano. Um filme silencioso, mas que fala alto.
O longa se encontra disponível no Prime Video.

Conclave (2025)
- Nota4
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