Se existe um estúdio de animação que atravessou décadas mantendo relevância e qualidade, esse estúdio é o Madhouse. Fundado nos anos 70, ele não apenas sobreviveu à evolução da indústria — ele ajudou a moldá-la. Com uma abordagem autoral, liberdade criativa e disposição para explorar todo tipo de gênero, Madhouse se consolidou como um dos estúdios mais respeitados da história dos animes.
Entre clássicos cult e sucessos modernos, a marca do estúdio é clara: visuais marcantes, direção ousada e narrativas que vão além do entretenimento. A versatilidade do Madhouse é tamanha que, em seu catálogo, você encontrará de tudo — do suspense psicológico ao shonen puro sangue, passando por gore, comédia, drama existencial e até filosofia metafísica.
A seguir, listamos 12 animes do estudio Madhouse que definiram gerações , organizados em ordem cronológica. Prepare-se para revisitar, ou conhecer verdadeiras joias da animação japonesa.
Trigun – Direção de Satoshi Nishimura (1998)
Gênero: Faroeste, ação, comédia, drama

Com o sucesso recente de Trigun Stampede (2023), muitos fãs estão redescobrindo o universo caótico e poético de Vash the Stampede. Mas antes do 3D estilizado da nova geração, houve uma versão que marcou época: Trigun (1998), animação clássica produzida pelo estúdio Madhouse. Foi essa adaptação que consolidou o personagem como um dos maiores ícones dos animes dos anos 90, entregando não só tiroteios e explosões, mas também filosofia, humor e drama em doses generosas.
Vash the Stampede é um protagonista como poucos. Conhecido como o “Tufão Humanóide”, ele é uma figura temida por onde passa, com uma recompensa multimilionária por sua cabeça. No entanto, por trás da fama de destruidor, há um pacifista convicto que se recusa a tirar vidas, mesmo em meio ao caos. A genialidade de Trigun está justamente nesse contraste: um pistoleiro quase invencível que prefere apanhar do que atirar para matar — um herói que desafia as expectativas do gênero.
Ambientado em um faroeste futurista, o anime traz uma atmosfera única que mistura o deserto seco do Velho Oeste com tecnologia decadente e dilemas morais complexos. A direção de Satoshi Nishimura, aliada à estética ousada do Madhouse, faz de Trigun uma obra visualmente marcante e emocionalmente profunda. A história começa leve, com humor e ação desenfreada, mas aos poucos mergulha em temas como redenção, dor, humanidade e o preço da compaixão. Trigun é aquele tipo de obra que começa com tiros e piadas, mas que termina te deixando reflexivo.
Hajime no Ippo – Direção de Satoshi Nishimura (2000)
Gênero: Esporte, ação, drama

Muito antes de animes de esporte dominarem os catálogos de streaming, Hajime no Ippo já estava nocauteando corações. Poucos animes são tão emocionantes como esse. Em 2000, a Madhouse apostou alto na adaptação da obra de George Morikawa — e acertou em cheio. A série não só conquistou os fãs de esportes como também impactou quem nunca ligou para boxe na vida. Porque no fim das contas, Ippo não é só sobre lutar no ringue — é sobre crescer, cair e se reerguer com ainda mais vontade de vencer.
Ippo Makunouchi é um adolescente tímido, acostumado a viver na sombra e sofrer bullying diariamente. Mas tudo muda quando ele conhece Takamura, um boxeador carismático que o leva para treinar em uma academia. Ali, Ippo descobre o universo do boxe e, mais do que isso, descobre a si mesmo. Sua jornada é feita de suor, dor e descobertas. A cada treino, a cada luta, ele vai moldando não apenas o corpo, mas o espírito — e conquistando o respeito de oponentes e fãs com sua humildade e determinação inabalável.
A Madhouse caprichou na animação, transformando os combates em verdadeiros espetáculos. Cada soco é carregado de tensão, cada sequência de golpes é coreografada com precisão. A trilha sonora empurra o espectador para dentro do ringue, e o desenvolvimento dos rivais — como Miyata, Sendo e Mashiba — transforma cada confronto em um capítulo emocional. Hajime no Ippo é mais do que um anime de esporte: é uma aula sobre esforço, paixão e superação. Um clássico absoluto que continua relevante, inspirador e imbatível no coração de quem já ouviu o som de um sino anunciando o primeiro round.
Hellsing Ultimate – Direção de Tomokazu Tokoro (2006)
Gênero: Ação, sobrenatural, horror

Enquanto os vampiros brilhavam em romances adolescentes, Hellsing Ultimate chegou para lembrar o mundo de que monstros podem — e devem — ser aterrorizantes. Esta reinterpretação fiel do mangá de Kouta Hirano trouxe exatamente o que os fãs esperavam: sangue em jatos, batalhas insanas, personagens intensos e uma atmosfera gótica carregada de simbolismo. Produzido em parte pela Madhouse nos primeiros episódios da série de OVAs, o anime é brutal, estilizado e absurdamente viciante — um verdadeiro deleite para quem gosta de ação com uma boa dose de caos sobrenatural.
No centro dessa tempestade está Alucard, um vampiro tão poderoso quanto sarcástico, que serve à Organização Hellsing — entidade secreta que combate ameaças não-humanas na Inglaterra. Alucard não é herói nem vilão: ele é uma força da natureza, um predador com séculos de sede por batalha, lealdade questionável e um prazer quase sádico em enfrentar inimigos poderosos. Ao seu lado, Integra Hellsing comanda a guerra com punho de ferro e uma fé inabalável em sua missão. O conflito escala quando nazistas remanescentes da Segunda Guerra, monstros mutantes e fanáticos religiosos se juntam à festa, transformando Londres em um campo de batalha apocalíptico.
Hellsing Ultimate tem tudo o que se espera dos Estudios Madhouse: animação fluida e visceral, dublagem marcante, trilha sonora intensa e uma direção que não tem medo de explorar o grotesco. A estética sombria é reforçada por diálogos carregados de filosofia distorcida e cenas que desafiam qualquer limite de censura. Mais do que uma história de vampiros, é um épico sobre poder, loucura e destruição. E se Alucard é a arma suprema da Hellsing, Hellsing Ultimate é a prova de que animes adultos podem ser arte e carnificina ao mesmo tempo.
Black Lagoon – Direção de Sunao Katabuchi (2006)
Gênero: Ação, crime, seinen

Se 2006 foi um ano marcante para os fãs de animes adultos, grande parte do mérito é da Madhouse, que entregou obras intensas e inesquecíveis — entre elas, Black Lagoon, um anime que entrega ação crua, dilemas morais e tiroteios cinematográficos. Ambientado na caótica cidade de Roanapur, onde governos não têm voz e o submundo dita as regras, o anime nos apresenta à Lagoon Company, um grupo de mercenários que sobrevive transportando cargas ilegais, se metendo em guerras territoriais e escapando da morte por um fio a cada episódio.
O ponto de vista inicial é o de Rock, um ex-executivo japonês que, após ser abandonado por sua empresa durante uma negociação fracassada, é “adotado” pela equipe de mercenários. Mas quem realmente carrega o peso narrativo é Revy, a icônica “Two Hands” — impulsiva, letal, irônica e cheia de camadas. O contraste entre o olhar civilizado de Rock e a selvageria urbana de Revy é o que dá alma à série, criando diálogos tensos e momentos de puro questionamento moral em meio a balas e explosões. A Madhouse entrega isso com uma direção energética e cenas de ação que parecem saídas de um filme de máfia misturado com blockbuster hollywoodiano.
Por trás da estética estilizada, Black Lagoon apresenta uma crítica social afiada, tratando de tráfico, guerras, religião, niilismo e sobrevivência. Nada é preto no branco — todos os personagens estão mergulhados em tons de cinza. E é justamente isso que torna o anime tão poderoso: ele não tenta justificar a violência, mas expõe suas causas e consequências de forma brutalmente honesta. Um marco dos animes de ação adulta, Black Lagoon prova que, quando a Madhouse acerta o tom, o resultado é explosivo — e inesquecível.
Death Note – Direção de Tetsurō Araki (2006)
Gênero: Psicológico, suspense, sobrenatural

Para fechar os destaques de 2006 da nossa lista, trazemos um dos maiores fenômenos da história dos animes que a Madhouse entregou: Death Note. Mais do que sucesso de público, Death Note se tornou referência absoluta em narrativas de suspense psicológico. A trama gira em torno de Light Yagami, um estudante genial que encontra um caderno capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito nele. A partir daí, começa um jogo mortal de lógica, manipulação e obsessão por justiça — ou pelo menos pela versão distorcida dela.
A grandeza de Death Note está nas mentes que se enfrentam. O embate intelectual entre Light e o misterioso detetive L é um duelo de xadrez onde cada jogada pode ser fatal. O elemento sobrenatural — representado pelos shinigamis como Ryuk — está presente, mas é o confronto entre L. e Yagami que domina a narrativa. As reviravoltas constantes, as decisões ambíguas dos protagonistas e o peso moral de cada escolha tornam a história densa e provocativa. Não é só um anime sobre um caderno assassino — é uma reflexão sobre poder, ego e o que nos torna juízes da vida alheia.
Visualmente, a Madhouse fez história. A direção de Tetsurō Araki transforma até uma simples escrita de nome em um evento épico, com close-ups dramáticos, iluminação teatral e uma trilha sonora que exala tensão. Cada episódio termina como se fosse um mini-cliffhanger, forçando você a clicar no próximo. A qualidade técnica e o roteiro afiado garantiram à série um lugar definitivo no panteão dos animes mais influentes de todos os tempos. Death Note não só marcou 2006 — ele mudou o jogo para sempre.
Claymore – Direção de Hiroyuki Tanaka (2007)
Gênero: Fantasia sombria, ação, drama

Em um mundo sombrio e violento, onde criaturas horríveis conhecidas como Yoma se alimentam da carne humana, semeando o terror em uma sociedade medieval já fragilizada , a humanidade cria uma ordem de guerreiras híbridas para enfrentar essas ameaças sobrenaturais, as Claymore — mulheres que possuem sangue de Yoma, mas que juraram proteger os humanos, ainda que isso signifique lutar contra sua própria humanidade. No centro da história está Clare, uma jovem guerreira que se encontra dividida entre a busca implacável por vingança e o dilema constante de preservar sua identidade humana.
A direção da Madhouse constrói uma atmosfera gótica e pesada, onde cada cena de combate parece transbordar tensão e violência. As batalhas sangrentas e as lutas intensas não são apenas sobre técnica, mas também sobre o custo emocional da luta constante contra um monstro interior. Clare, com seu passado torturado, se torna o símbolo perfeito da dualidade entre humanidade e monstros, e a animação captura essa luta interna com uma intensidade visual impressionante. Cada batalha é uma dança entre a vida e a morte, onde a linha entre os dois mundos é tênue e permeável.
Apesar do final do anime ser diferente do mangá, Claymore marcou o gênero de fantasia sombria. A construção de mundo, a estética visual e os dilemas existenciais enfrentados pelas personagens fazem desse anime uma experiência única. A Madhouse, mais uma vez, acertou ao equilibrar o tom sombrio e a construção de uma narrativa profunda, criando um anime que continua a ser lembrado como um dos títulos mais sólidos de fantasia dark na história dos animes.
Hunter x Hunter (2011) – Direção de Hiroshi Kōjina (2011)
Gênero: Aventura, ação, fantasia

Poucos nomes carregam tanto peso no universo dos animes quanto Yoshihiro Togashi — o mesmo gênio por trás de Yu Yu Hakusho. E em Hunter x Hunter (2011), a Madhouse teve a missão (e o privilégio) de adaptar de forma completa sua obra mais ambiciosa. A história segue Gon Freecss, um garoto ingênuo, mas determinado, que decide se tornar um Hunter para reencontrar seu pai. A premissa parece simples, mas rapidamente o anime se transforma em algo muito maior: uma jornada sobre amadurecimento, sacrifício, ética e sobrevivência. A nova versão de 2011 não é apenas uma atualização técnica — é um aprofundamento narrativo que entrega uma das experiências mais completas do gênero Shonen.
Um dos pontos mais fascinantes da série é o relacionamento entre Gon e Killua. Enquanto Gon representa pureza, esperança e determinação cega, Killua é sua antítese emocional: calculista, sombrio e herdeiro de uma família de assassinos. Mas essa oposição se torna complementar — os dois crescem juntos, influenciando e sendo moldados um pelo outro. Essa dualidade entre luz e sombra não apenas impulsiona o enredo, mas também dá uma camada emocional rara em animes de ação. O espectador não acompanha apenas lutas e superações — acompanha a formação do caráter, a perda da inocência e a descoberta do que significa realmente ser humano.
E, claro, seria impossível falar de Hunter x Hunter (2011) sem destacar o arco das Formigas Quimera — um divisor de águas no shonen moderno. Longo, denso e narrativamente ambicioso, ele apresenta Meruem, um dos vilões mais complexos e trágicos da história dos animes. O arco discute temas como evolução, empatia e propósito, enquanto desfaz a ilusão de que o bem e o mal são absolutos. Hunter x Hunter (2011) não é só uma obra-prima da Madhouse — é um marco definitivo no gênero Shonen e um presente para qualquer fã.
Parasyte: The Maxim – Direção de Kenichi Shimizu (2014)
Gênero: Sci-fi, horror, drama

Em meio aos lançamentos da década de 2010, Parasyte: The Maxim surgiu como uma obra que uniu ficção científica, terror biológico e existencialismo em um pacote visualmente moderno e conceitualmente denso. Baseado no mangá cult de Hitoshi Iwaaki, o anime acompanha Shinichi Izumi, um adolescente comum que se torna hospedeiro involuntário de um parasita alienígena chamado Migi — uma criatura que, por falhar em tomar o controle do cérebro, passa a habitar apenas sua mão direita. O resultado é uma relação simbiótica forçada entre duas formas de vida que não se entendem, mas precisam sobreviver juntas em um mundo que está lentamente sendo dominado por esses seres.
O grande acerto da Madhouse aqui vai além da fidelidade ao mangá: está na forma como a animação eleva o drama da narrativa, alternando momentos de brutalidade gráfica com pausas reflexivas sobre moralidade, empatia e o verdadeiro significado da humanidade. À medida que Shinichi é forçado a lutar contra outros parasitas e lidar com perdas irreversíveis, ele começa a mudar — tanto física quanto emocionalmente. A série traça esse arco de transformação com precisão cirúrgica, mostrando como o trauma pode moldar quem somos e até onde vamos para proteger o que amamos. Ao mesmo tempo, Migi, inicialmente indiferente e puramente lógico, também evolui, nos fazendo pensar se o “alienígena” é necessariamente o inimigo.
O resultado é um anime que oferece mais do que confrontos entre humanos e monstros: ele gera questionamentos sobre a posição da humanidade na cadeia evolutiva, sobre nossa arrogância como espécie dominante e sobre o que realmente nos torna humanos. Parasyte: The Maxim é visceral, sim, mas também é filosófico, inquietante e, por vezes, dolorosamente honesto. Com uma direção segura, trilha sonora impactante e uma construção de mundo envolvente, a Madhouse entrega uma obra que resgata um clássico do horror sci-fi, o transformando em uma experiência emocionalmente ressonante e intelectualmente provocativa. Um verdadeiro destaque da década.
Death Parade – Direção de Yuzuru Tachikawa (2015)
Gênero: Drama, psicológico, sobrenatural

Existem alguns animes que surgem sem alarde e, quando se percebe, já está cravado na mente dos fãs com uma história peculiar. Assim é com Death Parade: ao morrer, as almas não seguem imediatamente para o céu ou o inferno — elas são enviadas a um misterioso bar, comandado por árbitros como Decim, que as colocam em jogos aparentemente simples, mas com consequências existenciais profundas. O objetivo? Avaliar o caráter humano sob pressão extrema e decidir se aquela alma merece reencarnar ou cair no vazio eterno. Mas o que acontece quando o próprio árbitro começa a duvidar do sistema que representa?
Com uma animação fluida, trilha sonora melancólica e uma paleta de cores que cria um ambiente etéreo e o claustrofóbico, o anime é visualmente hipnotizante. A Madhouse equilibra bem o surrealismo do cenário com a intensidade emocional de cada julgamento. Death Parade não entrega respostas fáceis — pelo contrário, ele provoca. Ao longo dos episódios, a chegada de uma mulher misteriosa ao bar, que não tem lembranças de sua vida anterior, desafia Decim e transforma o enredo numa jornada de autoconhecimento e empatia. O espectador é levado a questionar não apenas o que é “justo”, mas também o que é “humano”.
Aqui vai uma curiosidade interessante. O que Death Note e Death Parade tem em comum? Nada a não ser por um easter egg provocador: uma aparição sutil de Light Yagami, que alimentou teorias entre fãs na época do lançamento. Mas as semelhanças param por aí. Onde Death Note é um thriller de mentes duelando em torno do poder, Death Parade é uma reflexão intimista sobre escolhas, arrependimentos e a complexidade de cada vida humana.
One Punch Man – Direção de Shingo Natsume (2015)
Gênero: Ação, comédia, super-herói

Em um mundo dominado por filmes de super-heróis e o crescimento meteórico de animes como Boku no Hero Academia, o ano de 2015 trouxe um herói inesperado — calvo, apático e absurdamente poderoso. One Punch Man surgiu como uma paródia afiada que descontrói todos os clichês do gênero shonen e das histórias de heróis em geral. Saitama, o protagonista, é tão forte que derrota qualquer inimigo com apenas um soco. Mas o maior vilão da sua vida não é nenhum monstro gigantesco — é o tédio absoluto. Sem desafio, sem emoção, ele se vê em uma busca solitária por um oponente que, finalmente, o faça sentir algo.
A genialidade do anime está exatamente aí: enquanto outros títulos buscam construir heróis por meio de superações, mentorias e vilões invencíveis, One Punch Man inverte a fórmula e pergunta — o que acontece quando você já atingiu o topo? A Madhouse, encarregada da animação da primeira temporada, entrega uma performance visual impecável. As cenas de ação são absurdamente fluidas, com coreografias cinematográficas, uso criativo de câmera e um ritmo explosivo que beira o espetáculo. Mesmo nos momentos mais cômicos, o impacto visual é levado a sério. O resultado é um anime que faz rir, impressiona e ainda provoca reflexão.
Mais do que uma simples sátira, One Punch Man é uma crítica sofisticada à necessidade constante de escala nas histórias de super-heróis. Ele questiona o vazio que pode existir por trás do poder absoluto e discute, com humor e ironia, o valor da motivação humana. Em uma era onde personagens são construídos para vender franquias ou reforçar arquétipos, Saitama surge como o herói que ninguém esperava, mas que todo o mundo precisava. Uma obra que começa como piada — e termina como elogio ao próprio gênero que desafia.
Overlord – Direção de Naoyuki Itou (2015)
Gênero: Isekai, fantasia sombria, ação

Quando os mundos virtuais começavam a virar cenário de fantasia nos animes, Overlord chegou para inverter expectativas. Lançado em 2015, o anime da Madhouse acompanha Suzuki Satoru, um jogador veterano que permanece conectado até o desligamento final do servidor do MMORPG Yggdrasil. Só que algo estranho acontece: ele não é desconectado. Preso no corpo do poderoso lich Ainz Ooal Gown, Satoru se vê diante de um novo mundo real onde decide expandir seu império sombrio, explorar as leis daquele universo mágico e, se possível, encontrar outros jogadores.
A força de Overlord está no carisma peculiar de Ainz como anti-herói calculista e dominante, e na forma como a Madhouse constrói um universo denso, repleto de política, criaturas míticas e disputas de poder. Diferente da abordagem tradicional de isekais, onde o protagonista é heróico ou ingênuo, aqui temos um império das sombras sendo edificado com inteligência e frieza. E é isso que torna a trama tão cativante: você não acompanha o herói — acompanha o conquistador. A galeria de personagens secundários, como Albedo, Demiurge e Shalltear, também se destaca com personalidades exageradas e fanatismo cômico e trágico ao mesmo tempo.
Visualmente, a série equilibra bem cenas grandiosas, criaturas grotescas e momentos de pura tensão estratégica. A produção da Madhouse traduz o tom sombrio da história em batalhas impactantes e uma ambientação que varia entre o gótico e o medieval. A cada temporada, a série foi ganhando mais peso, culminando no aguardado longa Overlord: O Reino Sagrado , lançado nos cinemas do Japão em setembro de 2024 e no Brasil em Novembro de 2024, pela Crunchyroll (agora também disponível no catálogo) e Sony Pictures.
O filme se passa logo após a quarta temporada e adapta os volumes 12 e 13 da light novel, mergulhando o público em mais um confronto épico — desta vez contra o temível imperador demônio Jaldabaoth.
Frieren: Beyond Journey’s End – Direção de Keiichiro Saito (2023)
Gênero: Fantasia, drama, slice of life

Normalmente, a maioria das histórias de fantasia terminam com o “e viveram felizes para sempre”, mas Frieren: Beyond Journey’s End começa justamente no pós-final. A obra recente da Madhouse, lançada em 2023, surpreende ao trocar a urgência das batalhas pelo ritmo calmo da introspecção. Acompanhamos Frieren, uma elfa maga que, após derrotar o Rei Demônio ao lado de seus companheiros, inicia uma nova jornada — não para salvar o mundo, mas para entender o que significa viver e se conectar com aqueles que têm uma vida muito mais breve que a sua.
Com uma abordagem contemplativa, o anime mergulha em temas como luto, memória, legado e o tempo. A passagem dos anos é retratada com poesia visual e peso emocional: enquanto Frieren continua jovem por fora, o mundo muda ao seu redor. Ela reencontra rostos do passado, forma novos vínculos e passa a refletir sobre o valor das experiências compartilhadas. Cada episódio é uma pequena lição de empatia e melancolia, equilibrando momentos de ternura com desafios mágicos na medida certa.
A Madhouse entrega aqui uma das animações mais belas dos últimos anos. Os cenários parecem pinturas aquareladas, os silêncios dizem tanto quanto os diálogos, e a trilha sonora acalma tanto quanto emociona. Frieren é uma obra que exige paciência, mas recompensa com uma profundidade rara nos dias de hoje, se revelando como um feito técnico e narrativo que confirma o estúdio como mestre em transformar sensibilidade em arte.
Menção Honrosa: Gungrave – Direção de Toshiyuki Tsuru (2003)
Gênero: Ação, drama, gangster
Além de Vash e Alucard, a Madhouse nos apresentou outro atirador que não deixa nenhum dos outros para trás. Como um bônus da lista, destacamos como menção honrosa Gungrave. Lançado em 2003, o anime começa como um épico de máfia, com atmosfera noir e tiroteios estilizados, e se torna um drama emocional carregado de perdas e escolhas dolorosas. A Madhouse acerta ao imprimir peso nas cenas de ação, mas também na construção dos personagens, que vão muito além de estereótipos. Brandon, em especial, é um protagonista trágico, guiado mais pelo silêncio do que por discursos — como um espectro do que já foi humano.
A trajetória entre a lealdade incondicional e a dor da traição é contada com uma maturidade rara, misturando elementos de ficção científica e horror biológico conforme Brandon se transforma em Beyond the Grave. Mesmo com ação estilosa e um visual sombrio, o foco emocional nunca se perde. O estúdio mostra domínio ao alternar entre momentos explosivos e introspecções silenciosas, equilibrando bem a estética de jogo (o anime é baseado em um título de um jogo para PlayStation 2) com profundidade narrativa.
Gungrave pode não ter tido o mesmo destaque comercial de outros títulos da Madhouse, mas sua narrativa densa, estilo visual marcante e trilha sonora melancólica garantem seu lugar entre as histórias mais subestimadas do estúdio. Uma obra que toca fundo em temas como memória, redenção e a inevitável ruína provocada pelo poder. Vale a pena conhecer esse tesouro.
Conclusão
O estúdio Madhouse se mantém como um dos pilares da animação japonesa por um motivo simples, mas poderoso: sua capacidade de se reinventar a cada projeto, sem jamais abrir mão da qualidade. Seja ao explorar faroestes espaciais com dilemas morais, explorar dramas existenciais ou criar mundos de fantasia ricos e imersivos, a Madhouse construiu uma filmografia plural, sólida e artisticamente memorável. Cada obra carrega identidade própria, mas todas compartilham o mesmo cuidado com narrativa, direção e impacto visual.
Poucos estúdios conseguiram trafegar com tamanha liberdade por tantos gêneros e ainda assim manter um nível tão alto de excelência. A ousadia em apostar em formatos pouco convencionais, aliada à técnica apurada, transformou a Madhouse não apenas em um nome respeitado, mas em uma referência para gerações de animadores e fãs ao redor do mundo.
Tanto para os recém-chegados como para veteranos da cultura Otaku, explorar o catálogo da Madhouse é como folhear as páginas de um livro de ouro da animação japonesa.
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