Review das Galáxias apresenta o Frankenstein de Guillermo Del Toro
Em um cenário onde adaptações e remakes são o que está em alta nos cinemas, repetir essa fórmula pode ter se tornado um pouco redundante. Mesmo assim, às vezes acontece o que chamo de casamento perfeito. O Frankenstein de Guillermo Del Toro é exemplo suficiente.
Trazer para a atualidade um clássico como Frankenstein é uma responsabilidade delicada, porque, se a ideia não for bem dosada, a adaptação corre o risco de se tornar mais uma caricatura ou uma homenagem mal ensaiada do que uma obra-prima — o que não foi o caso do Frankenstein de Guillermo Del Toro.
Hoje, na estreia do nosso Review das Galáxias, vamos trazer uma análise dessa adaptação de sucesso da Netflix que conseguiu não ser uma continuidade “bonitinha” do filme estrelado por Boris Karloff, mas uma relação direta do criador criando a sua criatura, tal como é na própria história do monstro idealizado por Mary Shelley.
O Frankenstein de Del Toro: visão autoral

No pequeno documentário Frankenstein: Aula de Anatomia, Del Toro inicia com uma fala emblemática: “O melhor da arte é que você cria uma obra que vai durar para sempre”. O criador de O Labirinto do Fauno, A Forma da Água e outros filmes onde suas criaturas conquistaram espaço na história do cinema realizou, em sua releitura do Prometeu Moderno, exatamente o que idealizou. Algo extraordinário.
O processo de quem cria é metódico, cíclico e pontual. A arte, no geral, é um processo orgânico e contemplativo. O Frankenstein de Del Toro não busca ser uma paródia. Seu olhar e cuidado com a história têm como foco apontar as consequências de se brincar de Deus de uma forma mais intimista, como um filho adolescente que confronta seu próprio pai em relação à criação que recebeu. Sua narrativa, embora um pouco livre do material original, consegue encontrar lugar e posicionamento próprios.
Diferente do clássico eternizado por Boris Karloff, o Frankenstein de Del Toro é dividido em duas partes. A primeira apresenta a história sob a ótica de Victor Frankenstein; a segunda nos apresenta a versão da criatura. Não é a intenção denominar quem é o vilão da história, já que o protagonista assume um antagonismo progressivo na trama e o monstro ganha uma humanidade justificada. Quem é o monstro? O que nos qualifica como profundamente humanos? São algumas das perguntas que ecoam no lugar de uma resposta pronta e previsível.
A Criatura e os personagens

O Frankenstein de Guillermo del Toro cambaleia antes de levantar, grita na tentativa de dizer suas primeiras palavras, que são os nomes de quem ganhou sua importância. O filme fala por si só, apontando um caminho natural onde os personagens podem existir de forma autêntica. Jacob Elordi, o ator escolhido para viver o monstro, embora novo, interpreta a criatura com maestria justamente por ser cruamente original. O que nos torna autênticos são nossas próprias imperfeições, e isso foi captado muito bem.
Seu comportamento tragicamente inocente e curiosamente belo contrasta com a figura robusta e ameaçadora do Frankenstein de Karloff, que, junto das sombras e dos efeitos visuais da época, se tornou um ícone do terror sem precisar recorrer ao tão explorado gore ou os jumpscares exaustivos. Aqui, o terror é mais poético do que performático, daqueles que trazem questionamentos e reflexões em vez de um entretenimento por vezes questionável. Não há horror maior do que perceber que os monstros são revelados pelo excesso de humanidade — e isso pode ser interpretado de mais de uma forma.
Os outros personagens, como o irmão de Victor — que foi ligeiramente amadurecido no filme, já que no clássico ele é apenas uma criança —, além da sensível Mia Goth e do expressivo Christoph Waltz, ajudam a sustentar emocionalmente a narrativa.
Estética e atmosfera

O filme não se garante apenas pela atuação brilhante do elenco. Fotografia, ritmo e direção de arte são parte ativa da história. A câmera de Dan Laustsen constrói imagens que parecem quadros góticos vivos, conduzidos por jogos de luz e sombra que reforçam a sensação de decadência e melancolia em cada cenário. A direção de arte enriquece essa estética, elevando o terror para algo mais emocional e poético, especialmente na forma como a Criatura é apresentada e como a Elizabeth de Goth ganha sensibilidade visual.
O que faz o filme funcionar é seu respeito pela obra original. O Frankenstein de Del Toro não deixa de lado o diálogo original nem a forma como a história é contada. Os personagens foram criados levando em conta também os atores que os interpretaram, como foi o caso de Oscar Isaac. Guillermo del Toro não se destaca apenas pela estética de suas criaturas, mas pelo interesse em apresentar o que definimos naturalmente como vilanesco, uma forma eficaz de mostrar o lado cru e real do ser humano, com todas as suas contradições.
O ritmo pode ser um pouco lento em algumas partes e exige paciência, mas a divisão da narrativa em capítulos ajuda a manter o clima de fábula sombria, respeitando a essência do clássico enquanto conversa com um público contemporâneo. O filme não entrega uma narrativa linear, daquelas em que se imagina inconscientemente o meio e o fim pelo cheiro de cada clichê — algo que normalmente não se espera do diretor de sucessos como Hellboy.
Recepção do público e impacto cultural

O filme estreou em 17 de outubro de 2025 nos cinemas de forma limitada e, posteriormente, foi lançado na Netflix em 7 de novembro de 2025, alcançando o 1º lugar no Top 10 global de filmes em inglês da plataforma por duas semanas consecutivas. No Rotten Tomatoes, o longa mantém cerca de 85% de aprovação entre os críticos e mais de 90% de aprovação do público no Popcornmeter, destacando-se como um dos melhores índices de audiência da Netflix em 2025.
A recepção crítica tem sido majoritariamente favorável, com pontuação acima dos 70 no Metacritic, baseada em dezenas de resenhas. A crítica elogia especialmente a humanização do monstro, com consenso destacando a performance de Jacob Elordi e a abordagem emocional da história. A estética gótica e o estilo visual característico de del Toro também se sobressaem, embora alguns apontem que a narrativa pode parecer lenta ou menos envolvente em comparação com obras anteriores do diretor.
Pontos fortes e limitações

O aspecto visual e estético do Frankenstein de Guillermo del Toro é amplamente reconhecido como um de seus principais pontos fortes, entregando cenários góticos meticulosos, figurinos ricos e uma fotografia que transforma cada quadro em uma composição densa e cheia de textura. Somada a isso, a adaptação foi elogiada por equilibrar o cuidado necessário ao romance clássico com uma sensibilidade narrativa mais humana entre Criador e Criatura.
Mas, como toda obra, o sucesso não o torna livre de críticas. Seu ritmo lento e suas duas horas e meia de duração tornam, para alguns críticos, a experiência um pouco arrastada em certos momentos. Houve críticas também em relação a fragilidades no roteiro e em partes da execução dramática, com diálogos menos inspirados ou uma estrutura que nem sempre equilibra bem as ambições do filme, resultando em momentos que priorizam mais a estética do que a condução narrativa. Além disso, algumas escolhas de adaptação simplificam a complexidade moral original da obra de Mary Shelley, o que incomodou parte do público mais crítico ou fãs da literatura.
De toda forma, o filme funciona muito bem tanto para quem nunca teve acesso ou interesse em ler o clássico e está a fim de conhecer mais uma criação de Del Toro quanto para quem é atraído por obras visualmente impactantes, com foco em atmosfera, arte de produção e performances intensas. Já para quem prefere filmes com ritmo acelerado, narrativa convencional ou fidelidade absoluta ao livro original, as escolhas do diretor podem não ser tão interessantes.
Conclusão
O Frankenstein de Guillermo del Toro não existe para competir com versões anteriores nem para modernizar o clássico por conveniência. Ele nasce da relação íntima do diretor com seus monstros, de seu respeito e paixão pela obra original de Mary Shelley e do entendimento de que essa história nunca foi apenas sobre terror, mas sobre criação, abandono e responsabilidade. Ao humanizar a Criatura e deslocar o horror para o campo emocional, a obra privilegia atmosfera, reflexão e identidade visual acima de fórmulas comerciais. Não é um filme apressado nem feito para agradar a todos, e é exatamente nessa escolha que reside sua força.
Há clássicos que são atemporais devido ao tamanho dos confrontos que provocam. Faz parte da nossa natureza, quando saudável, questionar a própria humanidade, independentemente de quão crua ou desconfortável ela seja. Frankenstein continua sendo uma metáfora real, valiosa e necessária. O Prometeu Moderno encontra lugar na mente cuidadosa de Guillermo del Toro que, assim como Victor Frankenstein, nos deixa com uma criação destinada a encontrar seu espaço na eternidade.
O Frankenstein de Guillermo del Toro não pede aplausos fáceis; ele pede reflexão. E é justamente por isso que marca a estreia do nosso Review das Galáxias: uma obra que encara o clássico de frente, respeita suas cicatrizes e prova que alguns monstros continuam mais vivos do que nunca.
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