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“Está mudando na velocidade da luz”: Leonardo DiCaprio reflete sobre a transformação do cinema

Para quem cresceu acreditando que o cinema era um ritual coletivo, com a luz se apagando lentamente, o silêncio tomando conta da sala e a história ganhando vida na tela grande, o momento atual provoca mais inquietação do que nostalgia.

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Leonardo DiCaprio reflete sobre a transformação do cinema

Leonardo DiCaprio reflete sobre a transformação do cinema – Aos 51 anos, Leonardo DiCaprio observa o presente da indústria cinematográfica com admiração pelo que ainda é possível criar, mas também com um alerta claro sobre os riscos que se acumulam. Em entrevista ao The Times de Londres, o ator afirmou que o cinema atravessa uma grande transição, impulsionada pela ascensão do streaming, pela mudança no comportamento do público e pelo encurtamento das janelas de exibição nas salas.

Está mudando na velocidade da luz”, disse DiCaprio. “Estamos testemunhando uma grande transição.” A fala não soa como um discurso alarmista, mas como a constatação madura de alguém que construiu sua carreira acreditando profundamente na experiência cinematográfica como algo insubstituível.

Quando ir ao cinema deixou de ser automático

Segundo DiCaprio, o modelo tradicional de lançamento de filmes vem se transformando de maneira radical nos últimos anos. Ele lembra que os documentários foram os primeiros a praticamente desaparecer das salas comerciais, migrando quase integralmente para festivais e plataformas digitais. Agora, observa o ator, os dramas seguem o mesmo caminho.

Os dramas têm um tempo de exibição muito limitado, e as pessoas simplesmente esperam para assisti-los no streaming”, afirmou. A frase toca em um ponto sensível da indústria contemporânea. O hábito de ir ao cinema deixou de ser parte natural da rotina cultural e passou a exigir um motivo extraordinário, quase um evento.

Para o público, essa mudança representa conforto, praticidade e acesso imediato. Para os cinemas, no entanto, significa salas mais vazias, menor diversidade de títulos em cartaz e uma dependência cada vez maior de grandes franquias para garantir sobrevivência financeira. O espaço para filmes médios, autorais ou menos comerciais se torna cada vez mais restrito.

Cinemas como espaços de nicho no futuro

A reflexão de DiCaprio vai além dos números e alcança o campo simbólico. O ator questiona se, no futuro, os cinemas continuarão sendo espaços populares ou se acabarão se transformando em ambientes mais fechados, frequentados apenas por um público específico.

Será que os cinemas vão se tornar como bares de jazz?”, perguntou. A metáfora carrega um peso claro. Lugares que não desaparecem completamente, mas deixam de ocupar o centro da vida cultural, sobrevivendo como refúgios para entusiastas e apaixonados.

Para quem ama cinema, a comparação é desconfortável. Ela sugere um futuro em que a experiência coletiva da sala escura se torna exceção, e não regra. Ainda assim, DiCaprio evita um tom fatalista e mantém uma esperança cautelosa.

Só espero que pessoas realmente visionárias tenham oportunidades suficientes para fazer coisas únicas no futuro, coisas que possam ser vistas no cinema”, completou. “Mas isso ainda está por ver.”

Um alerta que ecoa entre grandes nomes de Hollywood

As preocupações de DiCaprio não surgem isoladas. Elas ecoam declarações feitas por outros nomes centrais da indústria, especialmente cineastas que sempre defenderam o cinema como arte e linguagem própria, e não apenas como produto de consumo rápido.

Entre eles está Martin Scorsese, colaborador frequente do ator e uma das vozes mais críticas ao domínio das plataformas de streaming. Em um ensaio publicado em 2021 na revista Harper’s, o diretor foi contundente ao afirmar que a arte cinematográfica vinha sendo sistematicamente desvalorizada.

Para Scorsese, o problema vai além do meio de exibição e se manifesta na linguagem usada pela indústria. Ele criticou o uso indiscriminado do termo “conteúdo”, que, segundo ele, reduz filmes a itens intercambiáveis em um catálogo infinito.

A arte do cinema está sendo marginalizada, degradada e reduzida ao seu mínimo denominador comum”, escreveu o cineasta. Ele relembrou que, até pouco tempo atrás, o termo era utilizado apenas em debates críticos, sempre em contraste com a “forma”. Hoje, tornou-se comum entre executivos que pouco conhecem ou se importam com a história do cinema.

O paradoxo de um ator no auge em tempos incertos

As declarações de DiCaprio ganham ainda mais força por surgirem em um momento extremamente positivo de sua carreira. O ator é apontado como um dos favoritos ao Oscar por sua atuação em One Battle After Another, aclamada comédia dramática dirigida por Paul Thomas Anderson.

No longa, DiCaprio interpreta Bob Ferguson, um revolucionário decadente que é forçado a sair do esconderijo quando um antigo inimigo ressurge e sua filha desaparece. A performance rendeu ao ator uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical, enquanto o filme acumulou nove indicações no total.

O elenco conta ainda com Teyana Taylor, Regina Hall, Sean Penn e o estreante Chase Infiniti. A expectativa é de que o filme figure entre os principais indicados ao Oscar, incluindo Melhor Filme.

Aclamação crítica não garante espaço nas salas

A recepção crítica foi amplamente positiva. Em uma avaliação de cinco estrelas publicada pelo The Independent, a crítica Clarisse Loughrey descreveu o longa como “uma obra-prima americana feroz”, destacando o ritmo, a ousadia narrativa e o desempenho do elenco.

Ainda assim, o contraste é evidente. Mesmo filmes prestigiados, estrelados por grandes nomes e dirigidos por autores consagrados enfrentam hoje janelas cada vez mais curtas nos cinemas. O reconhecimento crítico já não assegura, por si só, uma longa permanência no circuito exibidor.

Entre a nostalgia e a reinvenção do cinema

As palavras de Leonardo DiCaprio soam como um chamado à reflexão. Não apenas para estúdios e exibidores, mas também para o público. O cinema, como experiência coletiva, sempre dependeu de uma escolha ativa. Sair de casa, dividir o espaço com desconhecidos e se permitir viver uma história em silêncio.

Em um mundo de acesso imediato e consumo individual, essa escolha se torna cada vez mais rara e, talvez por isso mesmo, mais preciosa.

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Escrito por
Emanoelly Rozas

Jornalista, publicitária, carioca, ruiva, leonina, motoqueira, dona de pet e filha do Carvalho. Informo a galera sobre esportes, cultura pop e algumas críticas de cinema. Conto histórias que estão na rotina do cidadão, do meu jeitinho carioca.

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