Durante os anos 1990, o público brasileiro foi apresentado a uma avalanche de animes que moldariam para sempre a relação do país com a cultura japonesa. Entre nomes que se tornaram fenômenos absolutos, como Cavaleiros do Zodíaco, algumas obras acabaram injustamente rotuladas, reduzidas a comparações simplistas. Yoroiden Samurai Troopers ou Samurai Warriors como foi conhecido no Brasil é, talvez, o maior exemplo disso.
O anime foi produzido pela Sunrise e exibido originalmente entre 1988 e 1989, totalizando 39 episódios de TV. Posteriormente, a franquia ganhou 11 OVAs, que expandiram a história, os conflitos e o destino de seus personagens. No Brasil, apenas a série de TV foi exibida, em 1996, extinta Rede Manchete, período em que a comparação com Cavaleiros do Zodíaco se tornou inevitável.
Agora, quase quatro décadas depois de sua estreia original, Samurai Warriors volta ao centro das atenções com o anúncio oficial de um novo anime previsto para 2026. O retorno reacende um debate antigo, mas necessário: afinal, Samurai Warriors sempre foi apenas uma “cópia” ou uma obra injustiçada por ter surgido na sombra de um gigante?
Este artigo busca responder essa pergunta com profundidade, contexto histórico e justiça cultural e mostrar que Samurai Warriors é muito mais que uma cópia de CDZ
O nascimento de Samurai Warriors e sua proposta original

Samurai Warriors nasceu em um momento de transição do anime. O mercado japonês começava a explorar narrativas mais dramáticas, heroísmos menos idealizados e conflitos simbólicos ligados à cultura oriental. A Sunrise, já experiente em produções de grande impacto, apostou em uma série que misturava mitologia japonesa, valores do Bushidō e ficção sobrenatural.
A trama gira em torno de cinco jovens guerreiros escolhidos para vestir armaduras místicas ligadas a virtudes humanas fundamentais. Eles enfrentam forças malignas que ameaçam não apenas o mundo físico, mas o equilíbrio espiritual da humanidade. Diferente de outros Shonen da época, o foco não estava apenas na escalada de poder, mas na responsabilidade moral que acompanha a força.
Desde sua concepção, Yoroiden Samurai Troopers apresentava uma identidade própria. A comparação com outras obras surgiria mais tarde, impulsionada por fatores externos — especialmente fora do Japão.
Exibição no Brasil e o peso da comparação com Cavaleiros do Zodíaco

Quando Samurai Warriors chegou ao Brasil, o cenário já estava definido. Cavaleiros do Zodíaco era um fenômeno cultural absoluto, dominando audiências, vendas de brinquedos e a imaginação de uma geração inteira. Qualquer anime com armaduras, grupo de heróis e batalhas dramáticas seria automaticamente comparado.
A exibição de Samurai Warriors pela Rede Manchete ocorreu nesse contexto. Para o público jovem, a associação foi quase automática. Visualmente, havia pontos em comum: armaduras, personagens jovens enfrentando forças malignas, dramatização intensa. No entanto, essa leitura superficial acabou ofuscando as diferenças fundamentais entre as obras.
Enquanto Cavaleiros do Zodíaco se inspira fortemente na mitologia grega e trabalha a ascensão heroica clássica, Samurai Warriors mergulha em valores orientais, simbolismo espiritual e um senso mais introspectivo de dever.
A comparação não nasceu da criação artística, mas da forma como o anime foi apresentado ao público brasileiro.
O papel decisivo da dublagem brasileira na percepção do anime

Um dos fatores mais importantes — e raramente analisados com profundidade — na comparação entre Samurai Warriors e Cavaleiros do Zodíaco foi a dublagem brasileira.
O protagonista de Samurai Warriors, Ryo Sanada (conhecido no Brasil como Héctor), foi dublado por Hermes Baroli, o mesmo dublador que deu voz a Seiya, protagonista de Cavaleiros do Zodíaco. Para uma geração que assistia anime diariamente na TV aberta, essa coincidência vocal criou uma associação imediata.
Não se tratou de descuido. Na década de 1990, estúdios de dublagem frequentemente escalavam vozes já consagradas para facilitar a identificação do público com novos personagens. Era uma estratégia de mercado eficaz, mas que, no caso de Samurai Warriors, acabou reforçando um rótulo injusto.
A voz familiar ajudou na aceitação inicial, mas também cristalizou a ideia de que se tratava de “mais do mesmo”, quando, na verdade, o anime seguia por caminhos narrativos distintos.
Samurai Warriors é um anime que tem identidade própria

Reduzir Samurai Warriors a uma cópia ignora seus pilares narrativos. As Nove Armaduras, por exemplo, não representam constelações ou deuses externos, mas virtudes humanas essenciais, como coragem, lealdade, sabedoria e justiça. Cada guerreiro carrega não apenas poder, mas responsabilidade emocional e espiritual.
Os conflitos da série raramente são resolvidos apenas com força bruta. Há perdas, dilemas internos e sacrifícios que deixam marcas reais nos personagens. O vilão central não é apenas um obstáculo físico, mas uma ameaça simbólica ao equilíbrio do mundo.
Essa abordagem confere à história do anime Samurai Warriors uma densidade que passa despercebida quando a obra é vista apenas pelo prisma da comparação com CDZ.
Samurai Warriors vs CDZ: semelhança inevitável, injustiça histórica

É importante reconhecer: a comparação foi inevitável. Os dois animes coexistiram na memória afetiva do público brasileiro, dividiram horários próximos e compartilhavam elementos visuais que, à primeira vista, pareciam similares.
No entanto, afirmar que Samurai Warriors é uma cópia ignora contextos culturais, criativos e simbólicos. Cavaleiros do Zodíaco se estrutura como uma epopeia mitológica de ascensão heroica. Samurai Warriors opera como uma tragédia espiritual, onde o heroísmo cobra um preço constante.
O problema não foi a semelhança estética, mas a falta de espaço para que Samurai Warriors fosse compreendido em seus próprios termos.
O legado silencioso de Samurai Warriors

Mesmo sem atingir o mesmo nível de popularidade global de CDZ, Samurai Warriors construiu um status cult. Seus OVAs aprofundaram conflitos, amadureceram personagens e ampliaram o universo da série, algo que muitos fãs brasileiros sequer tiveram acesso na época.
Com o tempo, a obra passou a ser redescoberta por fãs mais atentos, que perceberam sua importância dentro da evolução do anime moderno. A história do anime Samurai Warriors passou a ser revisitada não como curiosidade, mas como peça fundamental de uma era.
Afinal, quem pediu por um novo anime de Samurai Troopers?

O anúncio do novo anime de Samurai Troopers, previsto para 2026, não surgiu do nada. Ele é resultado de décadas de demanda silenciosa, vinda de fãs que nunca aceitaram que a franquia fosse reduzida a uma nota de rodapé.
Comunidades online, eventos, debates e revisões críticas mantiveram a chama acesa. O mercado japonês, atento à valorização de clássicos, percebeu que Samurai Warriors ainda possui relevância temática, especialmente em um mundo que volta a discutir valores, identidade e responsabilidade.
O novo projeto não é apenas um resgate nostálgico. Ele representa uma tentativa de reposicionar a franquia, apresentando-a a um público que nunca viveu a era Manchete, mas que busca narrativas mais densas e autorais.
O novo anime de 2026 e o desafio da releitura moderna

O anime anunciado para 2026 não é um remake simples. Trata-se de uma continuação ambientada no mesmo universo, com nova abordagem visual e narrativa. Isso traz desafios claros: respeitar a essência sem parecer datado, modernizar sem descaracterizar.
Em uma indústria onde reboots falham justamente por ignorar o espírito original, Samurai Warriors carrega a vantagem de ter uma base conceitual forte. Se bem executado, o novo anime pode finalmente corrigir décadas de percepção distorcida.
Samurai Warriors como clássico reavaliado

Assim como outras obras clássicas foram reintroduzidas ao público moderno com sucesso, Samurai Warriors tem potencial para ser reavaliado sob uma nova ótica. Não como “o anime parecido com CDZ”, mas como uma obra que trilhou seu próprio caminho, mesmo que injustamente ofuscada.
A história do anime Samurai Warriors mostra que relevância não se mede apenas por números, mas por legado, influência e capacidade de resistir ao tempo.
Conclusão
Samurai Warriors nunca foi apenas uma cópia. Foi um anime lançado no momento errado, no mercado errado e sob a sombra de um fenômeno impossível de ignorar. Ainda assim, sobreviveu.
Agora, com o retorno em 2026, a franquia tem a chance de finalmente ser vista como sempre mereceu: um clássico com identidade própria, que ajudou a moldar o imaginário de uma geração e que ainda tem muito a dizer.
Revisitar Samurai Warriors hoje não é apenas um exercício de nostalgia. É um ato de justiça cultural.
Qual a sua opinião?