A indústria de games sul-coreana enfrenta nesta terça-feira (13) o que analistas já consideram um dos momentos mais críticos de sua história moderna, marcado por uma mudança drástica de diretrizes após resultados financeiros alarmantes.
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Segundo dados revelados há poucas horas, o setor registrou uma desvalorização de mercado estimada em US$ 2,7 bilhões (aproximadamente 3 trilhões de won), forçando as principais desenvolvedoras a reconsiderarem seus modelos de negócios. O foco, antes inabalável nos grandiosos MMORPGs, agora se volta para a simplicidade e rentabilidade dos jogos casuais e do gênero “idle”.
O colapso financeiro da indústria de games sul-coreana
O relatório, que baseou a apuração desta reportagem e foi divulgado originalmente pelo portal financeiro asiático KED Global, aponta que a saturação do mercado interno e a fadiga dos jogadores com mecânicas predatórias de monetização foram os catalisadores dessa retração. Durante décadas, gigantes como NCSoft, Nexon e Netmarble construíram impérios digitais baseados na fórmula “Lineage-like”: jogos massivos, visualmente complexos e dependentes de itens de probabilidade (Gacha) para gerar receita. No entanto, o ano de 2025 e o início de 2026 provaram que esse poço secou.

A perda de quase US$ 3 bilhões em valor de mercado não é apenas um número em uma planilha; representa a rejeição do consumidor ao modelo “Pay-to-Win” (Pagar para Vencer). Investidores reagem com cautela, retirando capital de projetos de alto orçamento que demoram anos para serem concluídos, preferindo agora ciclos de desenvolvimento mais curtos e com retorno sobre investimento (ROI) mais rápido.
O fim da hegemonia dos MMORPGs
Historicamente, a Coreia do Sul foi o berço e o principal exportador de MMORPGs (Massively Multiplayer Online Role-Playing Games). Títulos como Lineage W, Black Desert e Lost Ark definiram gerações. Contudo, a estrutura pesada desses jogos tornou-se um fardo. Manter servidores caros, equipes de suporte massivas e a necessidade constante de atualizações de conteúdo de alta fidelidade gráfica corroeram as margens de lucro.
Além disso, o perfil do jogador mudou. O público que antes dedicava 8 a 10 horas diárias em frente ao PC para “grindar” (termo usado para a repetição de tarefas visando evolução) agora busca experiências mais fragmentadas. O fracasso recente de lançamentos de alto perfil que tentaram replicar a fórmula antiga serviu como o último aviso para os CEOs das grandes “chaebols” de tecnologia.
A ascensão dos jogos ‘Idle’ e Casuais
Em resposta à crise, observa-se uma migração em massa dos estúdios para o desenvolvimento de jogos do gênero “Idle” (ou jogos de “criação/raising”). Títulos como Legend of Mushroom, que exigem pouca interação ativa do jogador mas mantêm altos níveis de retenção e monetização através de microtransações menores e mais frequentes, tornaram-se o novo padrão de ouro.
Esta mudança estratégica oferece diversas vantagens para as desenvolvedoras:
- Custo de Produção Reduzido: Enquanto um MMORPG AAA pode custar mais de US$ 100 milhões e levar 5 anos para ser feito, um jogo Idle de sucesso pode ser desenvolvido com uma fração desse valor em meses.
- Alcance Global: Jogos casuais têm barreiras de entrada menores, funcionando bem em smartphones de entrada em mercados emergentes, ao contrário dos pesados jogos 3D.
- Monetização Aceitável: O modelo de anúncios recompensados e passes de batalha baratos é menos rejeitado pelo público do que as “loot boxes” de itens raros que custam milhares de dólares.
O futuro das gigantes: NCSoft, Krafton e Netmarble
A reestruturação já é visível nas contratações e nos roadmaps das empresas. A NCSoft, tradicionalmente a mais conservadora e apegada ao legado de Lineage, enfrenta a maior pressão para diversificar. Já a Krafton, dona do fenômeno PUBG, parece estar um passo à frente, investindo tanto em experiências narrativas para consoles quanto em divisões móveis ágeis.

A Netmarble, por sua vez, tem acelerado a publicação de títulos baseados em IPs de animes populares (como Solo Leveling), utilizando mecânicas simplificadas de RPG de ação que flertam com o casual, afastando-se da complexidade dos MMOs de mundo aberto.
O cenário para 2026 é claro: a indústria sul-coreana não está morrendo, mas está passando por uma metamorfose dolorosa. A era dos mundos virtuais persistentes e dominantes cede espaço para a conveniência e a rapidez. Para os jogadores puristas, é o fim de uma era dourada; para o mercado financeiro, é uma correção necessária para garantir a sobrevivência do setor.
Fonte: Kedglobal.com
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