O premiado musical Hadestown, um dos maiores fenômenos da Broadway nos últimos anos, finalmente chegará ao Brasil em 2026. Criada por Anaïs Mitchell e dirigida por Rachel Chavkin, a produção reinventa mitos da mitologia grega para contar uma história sobre amor, esperança, desigualdade social e capitalismo, tudo embalado por uma trilha sonora que mistura folk, jazz e blues.
Vencedor de oito prêmios Tony, incluindo Melhor Musical, Hadestown conquistou o público ao transformar a jornada de Orfeu e Eurídice em uma narrativa poderosa e extremamente atual.
Qual é a história de Hadestown

A trama acompanha Orfeu, um músico, filho da deusa da poesia que acredita no poder da arte para mudar o mundo, e Eurídice, uma jovem objetiva que luta para sobreviver em meio à fome. Quando Eurídice é seduzida pelas falsas promessas de estabilidade e segurança oferecidas por Hades, ela acaba presa em Hadestown, um mundo subterrâneo industrializado onde trabalhadores vivem presos a ciclos eternos de produção.
Determinado a resgatar seu grande amor, Orfeu desce até Hadestown e tenta convencer Hades por meio da música. Tocando até mesmo os deuses, ele consegue uma chance de levar Eurídice de volta ao mundo dos vivos, mas sob uma condição cruel: ele caminharia à frente dela sem olhar para trás até que ambos estivessem fora do submundo, caso olhasse perderia tudo.
Mesmo sabendo como o mito termina, como avisado logo na música de abertura, Hadestown constrói sua narrativa em torno da esperança, fazendo o público acreditar que, talvez desta vez, a história possa mudar.
As diferenças entre o mito de Orfeu e Eurídice e o musical Hadestown

No mito original, Orfeu é um poeta e músico lendário cuja música tem poder sobrenatural. Após a morte de Eurídice por uma picada de cobra, ele desce ao submundo movido apenas pelo luto. Hades permite que Eurídice volte à vida, mas Orfeu falha ao olhar para trás no último momento, quando já estava vendo a luz, perdendo-a para sempre. O mito termina de forma definitiva e sem redenção. Como uma boa tragédia grega, não há segunda chance para escolhas erradas.
Em Hadestown, a história ganha novas camadas. Eurídice deixa de ser apenas uma figura passiva e passa a ter voz, tomando decisões motivadas pela fome, medo e pela necessidade de sobreviver. O submundo não é apenas o reino dos mortos, mas um sistema econômico opressor. Já o olhar para trás não é apenas um erro individual, mas o resultado de dúvida, pressão psicológica das Fúrias e falta de confiança em um mundo que constantemente quebra promessas.
O musical também se diferencia ao enfatizar que a história é contada repetidas vezes, mesmo sabendo o final, porque a esperança de mudança é um ato de resistência.
Hadestown como metáfora do capitalismo

Um dos grandes diferenciais do musical é sua leitura social e política. Hadestown funciona como uma metáfora direta do capitalismo, representando um sistema onde Hades controla os meios de produção, promete segurança em troca de liberdade e transforma pessoas em peças substituíveis.
Os trabalhadores constroem muros sem saber exatamente para quem ou para quê, refletindo a alienação do trabalho moderno. Eurídice, ao aceitar a proposta de Hades, simboliza aqueles que são forçados a abrir mão de sonhos, vínculos afetivos e identidade para sobreviver, trabalhando incansavelmente. Já Orfeu representa a arte, a imaginação e a esperança como formas de resistência, ainda que frágeis diante de estruturas opressoras.
Eva Noblezada, Reeve Carney e o amor dentro e fora dos palcos

Na Broadway, Eva Noblezada e Reeve Carney deram vida a Eurídice e Orfeu, respectivamente, em performances que se tornaram definitivas para os personagens. A química entre os dois atravessou o palco e se transformou em um relacionamento na vida real.
Eva Noblezada e Reeve Carney se casaram em 2025, em uma cerimônia que emocionou fãs do musical ao redor do mundo. A união do casal adiciona ainda mais força simbólica à história de Hadestown, já que Orfeu e Eurídice, que nunca conseguem um final feliz no mito, encontraram esse desfecho fora da ficção.
Por que Hadestown continua tão relevante

Mesmo baseado em mitos antigos, Hadestown dialoga diretamente com o presente. Crises econômicas, desigualdade social, precarização do trabalho e a dificuldade de manter a esperança em um mundo cada vez mais duro são temas centrais da obra.
A chegada do musical ao Teatro Renault em 2026 promete gerar forte identificação com o público nacional, trazendo uma história que mistura tragédia, poesia e crítica social, e reafirmando o poder do teatro musical como ferramenta de reflexão.
Hadestown nos lembra que algumas histórias precisam ser contadas repetidas vezes, não porque mudam, mas porque seguimos acreditando que podem mudar.
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