A estreia de O Cavaleiro dos Sete Reinos deixa evidente, logo em seus primeiros minutos, que esta não é apenas mais uma série ambientada em Westeros.
Diferente das disputas grandiosas de Game of Thrones ou do drama dinástico de House of the Dragon, o novo derivado aposta em uma fantasia mais contida, íntima e deliberadamente imperfeita.
Nesta crítica do primeiro episódio de O Cavaleiro dos Sete Reinos, somos apresentados a um protagonista distante do ideal heroico tradicional.
Sem títulos, sem prestígio e sem certezas, Dunk inicia sua jornada a partir do ponto mais baixo possível: a estrada.
É ali, longe de castelos e salões imponentes, que a série começa a construir sua identidade narrativa.
Ao adotar esse recorte, a produção se aproxima com fidelidade do espírito da obra de George R. R. Martin, explorando um Westeros raramente visto nas adaptações televisivas — mais sujo, mais humano e muito menos glorioso.
O Cavaleiro dos Sete Reinos: Crítica do Episódio 1 – O Cavaleiro Andante
O episódio inaugural, intitulado O Cavaleiro Andante, funciona como uma declaração de intenções.
Em vez de batalhas épicas ou intrigas políticas complexas, a série opta por apresentar seu mundo a partir da perda, da ausência e do improviso.
Aqui, a fantasia nasce do acaso, não do destino.
O Cavaleiro dos Sete Reinos: crítica do primeiro episódio
A proposta narrativa do episódio se apoia na desconstrução do herói clássico.
Duncan não é apresentado como alguém predestinado à grandeza, mas como um homem comum tentando ocupar um espaço que talvez ainda não lhe pertença.
Essa escolha define o tom da série e estabelece um contraste direto com outras produções do universo Game of Thrones.
Análise narrativa do primeiro episódio

O primeiro episódio começa com Duncan enterrando seu antigo mestre — um gesto simples, mas carregado de significado.
A morte funciona como ponto de ruptura: o fim de uma tutela e o início de uma caminhada solitária. Sem orientação e sem um rumo claro, o protagonista parte levando apenas uma espada, três cavalos e a estrada à frente.
A estrutura dialoga com a Jornada do Herói, mas de forma rebaixada.
Não há um chamado glorioso nem uma recusa dramática. Duncan simplesmente segue em frente porque não há outra opção. A aventura não o escolhe; ele tropeça nela.
Os recortes de cena são um dos grandes acertos do episódio.
Em vários momentos, bem divididos entre a história, o discurso do protagonista é desmentido por uma cena que o contradiz.
Quando Duncan afirma que seu antigo senhor desejava armá-lo cavaleiro, a montagem sugere o contrário.
Esse jogo entre palavra e imagem cria um humor sutil e inteligente, reforçando o caráter imperfeito do herói.
Construção de personagens

Duncan, um cavaleiro sem glória
Duncan é construído como um protagonista em constante desalinho.
Sua aparência desleixada, sua postura insegura e sua dificuldade em se impor diante de figuras de autoridade revelam um personagem que ainda não compreende totalmente o papel que tenta assumir.
O humor da série surge justamente dessa inadequação.
Não há piadas explícitas, mas situações inesperadas. O encontro com Lyonel Baratheon é exemplar: diante de expectativas grandiosas, Duncan revela que está ali apenas pelo jantar.
A resposta quebra o protocolo narrativo e aproxima o personagem do espectador.
A série deixa claro que a nobreza, aqui, não é um título herdado, mas algo que se constrói a partir das escolhas.
Duncan ainda não é um herói, mas começa a demonstrar os valores que podem torná-lo um.
Egg e o nascimento de um novo ciclo
A introdução de Egg, o garoto que passa a acompanhar Duncan, reforça o caráter cíclico da narrativa.
Assim como o protagonista um dia seguiu seu mestre movido por fantasia e necessidade, Egg se deixa encantar pela figura do Cavaleiro Andante.
Ao aceitar o garoto como escudeiro e prometer ser um senhor diferente daquele que teve, Duncan revela um traço necessário de nobreza moral.
Para quem conhece a obra literária, o momento ganha peso adicional,quando conhece a verdadeira identidade de Egg [SPOILER], detalhe que a série, corretamente, guarda para o tempo certo.
Direção, roteiro e simbolismos
A direção opta por uma estética mais crua e menos romantizada.
Westeros é mostrado como um lugar desconfortável: estalagens malcuidadas, torneios improvisados e uma sensação constante de precariedade.
Mesmo quando figuras nobres aparecem, a imponência parece incompleta, quase falha.
O uso contido da trilha clássica de Game of Thrones é outro acerto. Ela surge apenas como um eco distante, evocando o passado da franquia sem se transformar em fan service gratuito.
Entre os simbolismos mais fortes está a moeda com o brasão dos Targaryen deixada sobre a mesa e, principalmente, o diálogo final entre Duncan e Egg, observando as estrelas enquanto os demais cavaleiros se contentam em olhar para o teto de uma tenda.
A cena sintetiza a proposta do episódio: enquanto muitos se prendem às aparências, poucos ainda ousam sonhar.
Conexões com o universo de Game of Thrones e a obra de George R. R. Martin

O Cavaleiro dos Sete Reinos expande o universo criado por George R. R. Martin ao explorar Westeros fora do foco das grandes Casas.
A série mostra que o mundo não se resume a reis, dragões e disputas pelo trono, mas também aos que vivem à margem da história oficial.
A propósito, as conexões com os Targaryen são necessárias para entender esse contexto mais amplo e já foram analisadas em detalhes aqui no Galáxia Nerd:
https://galaxianerd.com/2025/10/14/conexoes-targaryen-em-o-cavaleiro-dos-sete-reinos/
A série também dialoga diretamente com House of the Dragon, funcionando quase como um contraponto temático, como explorado neste artigo:
https://galaxianerd.com/2024/06/12/house-of-the-dragon-e-o-cavaleiro-dos-sete-reinos/
Enquanto House of the Dragon trata da decadência de uma dinastia, O Cavaleiro dos Sete Reinos observa os efeitos desse mundo sobre quem nunca teve poder algum.
Ritmo lento: defeito ou proposta narrativa?
Para quem espera grandes batalhas logo no primeiro episódio, o ritmo pode parecer lento.
No entanto, essa cadência é parte essencial da proposta. Duncan não começa como herói porque sua história não é focada em conquistas imediatas, mas em sua formação.
A série opta por “emagrecer” a fantasia, retirando excessos e focando no que é principal.
Em vez de elevar o simples à nobreza de forma artificial, constrói a nobreza a partir do simples, fugindo de clichês.
É um caminho mais silencioso, porém mais coerente com o espírito da obra original.
Conclusão
Nesta crítica de O Cavaleiro dos Sete Reinos – Episódio 1, fica claro que a série busca estabelecer uma identidade própria dentro do universo Game of Thrones.
O Cavaleiro Andante é um início modesto, deliberadamente imperfeito e profundamente humano.
Duncan não é um herói — ainda. Mas sua jornada, construída entre tropeços, escolhas e pequenos gestos de nobreza, aponta para uma narrativa onde a grandeza nasce da simplicidade e não do poder herdado.
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